Transferência de embriões: quantos transferir?

Esta é uma reflexão pessoal e profissional sobre a transferência de embriões, construída a partir do que observo diariamente em diferentes contextos: mulheres jovens em primeiras tentativas, pacientes acima dos 40 anos, tratamentos no setor privado e no público, histórias de sucesso e de frustração.

Ao longo dos anos, vi padrões repetirem-se decisões baseadas em protocolos rígidos, e não em pessoas. Os estudos científicos são essenciais, mas precisam de ser interpretados e contextualizados.
Ler uma meta-análise sem entender o tipo de paciente envolvida é arriscado.

Um resultado pode parecer universal mas quando olhamos de perto, percebemos que era verdade naquele grupo, naquela idade, naquele contexto, e não necessariamente no nosso. Se não soubermos contextualizar, os estudos acabam por dizer o que queremos ouvir, e não o que realmente precisamos de saber.

Muitas das minhas pacientes chegam com esta dúvida: “coloco um ou dois embriões?” e percebo que a informação disponível é técnica, mas pouco humana. Por isso decidi escrever este artigo: para esclarecer, com base em evidência e experiência real, quando transferir dois embriões faz sentido, quando é um erro, e porque a decisão nunca deve ser automática.

2. O que dizem os estudos sobre a transferência de embriões

Antes de decidir quantos embriões transferir, é essencial compreender o que está em causa numa transferência de embriões.

2.1 SET vs DET — a comparação real

Antes de olhar para números, é importante entender os conceitos:

      • SET (Single Embryo Transfer) — transferência de um único embrião.

      • DET (Double Embryo Transfer) — transferência de dois embriões no mesmo ciclo.

      • eSET (Elective Single Embryo Transfer) — quando se escolhe transferir apenas um embrião, mesmo havendo outros disponíveis e viáveis.

    As meta-análises mais recentes, incluindo uma revisão Cochrane (2020), mostram que nas mulheres com menos de 35 anos, o DET apresenta uma taxa de nascido vivo entre 42% e 45%, enquanto o SET ronda os 28% a 30%.
    Ou seja, transferir dois embriões pode aumentar significativamente as hipóteses de gravidez.

    Contudo, é preciso ir além da estatística.
    O risco de gravidez gemelar aumenta com o DET, isso é um facto, mas os estudos indicam que as complicações obstétricas graves não aumentam de forma significativa em mulheres jovens e saudáveis, sem doenças metabólicas ou uterinas importantes.
    Em outras palavras: em mulheres abaixo dos 35 anos e com boa condição física, o risco adicional é baixo, e o ganho reprodutivo é real.

     

    Fonte: Revisão Cochrane (2020)

    Ainda assim, estes dados precisam sempre de ser ajustados à idade, à causa da infertilidade e ao tipo de embriões transferidos, porque o mesmo número pode significar coisas muito diferentes em cada contexto clínico.

    2.2 Porque os estudos nem sempre refletem a prática

    Grande parte dos estudos que comparam a transferência de um ou dois embriões é realizada em grupos de mulheres de bom prognóstico jovens, com embriões de excelente qualidade, sem endometriose, adenomiose ou inflamação uterina.
    Esses resultados não representam a realidade de muitas pacientes que enfrentam infertilidade complexa, múltiplas cirurgias, alterações imunológicas ou inflamatórias persistentes.

    Além disso, os estudos raramente consideram o tempo perdido entre transferências falhadas, o tempo biológico, o tempo de espera entre ciclos, o impacto emocional e o desgaste físico que cada tentativa exige.
    Na vida real, cada falha significa meses de atraso e mais exposição hormonal, algo que a estatística não traduz.

    Por isso, os números não podem ser lidos isoladamente.
    O risco clínico não é o mesmo para todas as mulheres: a idade, a causa da infertilidade, o estado inflamatório e o tipo de embriões transferidos alteram completamente o resultado.
    Interpretar a evidência sem contexto é como aplicar o mesmo protocolo a corpos diferentes e esperar o mesmo desfecho.

    3. Fatores que devem ser analisados antes da decisão na transferência de embriões

    3.1 Idade materna

    A idade da mulher continua a ser o fator mais determinante na fertilidade tanto para a taxa de implantação embrionária como para o risco obstétrico durante a gravidez.

    Antes dos 35 anos, o útero e o sistema vascular tendem a responder bem: há melhor oxigenação, menor inflamação e maior flexibilidade hormonal, o que permite sustentar uma gravidez, mesmo gemelar, com segurança.

    A partir dos 37 anos, o cenário muda. A vascularização uterina começa a perder eficiência, o stress oxidativo aumenta e o corpo já não tolera da mesma forma uma gravidez múltipla. O risco de hipertensão, diabetes gestacional e parto prematuro sobe de forma significativa não por causa do número de embriões, mas pela idade metabólica do organismo.

    Por isso, transferir dois embriões só por a mulher ser mais velha é um erro clínico frequente. O corpo pode não estar preparado para o esforço fisiológico de uma gestação gemelar, mesmo que a intenção seja acelerar o processo.

    3.2 Causa da infertilidade

    A causa base da infertilidade altera completamente a taxa de sucesso de cada embrião transferido.
    Nas mulheres com endometriose ou adenomiose, há um ambiente uterino mais inflamatório, com alterações na vascularização, no equilíbrio imunológico e na espessura endometrial. Tudo isso reduz a probabilidade de implantação por embrião, mesmo quando os embriões são de boa qualidade.

    Nestes casos, transferir dois embriões pode compensar essa limitação fisiológica, aumentando a hipótese de pelo menos um implantar.
    Não se trata de “arriscar mais”, mas de ajustar a estratégia ao contexto biológico porque um útero inflamado, mesmo preparado, não oferece as mesmas condições que um útero saudável.

    É aqui que o raciocínio clínico deve prevalecer sobre o protocolo: em casos inflamatórios, o DET (transferência dupla) não é um excesso, é uma adequação.

    3.3 Qualidade embrionária

    A qualidade e o estádio de desenvolvimento dos embriões são determinantes no sucesso da transferência.

    Os embriões D5 (blastocistos de 5.º dia) são os mais utilizados atualmente porque já atingiram um grau de maturação e expansão celular que lhes confere maior capacidade de implantação as taxas variam entre 50% e 65% por embrião, quando de boa morfologia.
    Os D6 (blastocistos de 6.º dia) apresentam um ligeiro atraso no desenvolvimento, e a taxa de implantação tende a ser mais baixa — muitas vezes, 10 a 15% inferior aos D5, sobretudo em úteros com inflamação ou endometriose.

    Já os embriões de D2 ou D3 (fase de clivagem), transferidos antes do estágio de blastocisto, têm menor previsibilidade de sucesso, pois ainda não completaram o processo de seleção natural que ocorre entre o 4.º e o 5.º dia. A taxa média de implantação situa-se entre 25% e 35%, dependendo da idade materna e das condições uterinas.

    Além disso, os embriões euploides, testados geneticamente por PGT-A, têm até 70% de hipótese de implantação, independentemente do dia da transferência, porque a triagem genética elimina embriões com anomalias cromossómicas.

    Em resumo: quanto melhor a qualidade e a euploidia do embrião, menor a necessidade de transferir dois. Mas quando os embriões são de clivagem (D2–D3) ou não testados, a transferência dupla pode ser clinicamente justificável para compensar a incerteza genética e fisiológica.

    Tipo de embriãoCaracterísticas principaisTaxa média de implantação
    D2–D3 (clivagem)Desenvolvimento precoce, menor previsibilidade de sucesso25–35%
    D5 (blastocisto)Maior maturação celular e potencial de implantação50–65%
    D6 (blastocisto tardio)Atraso no desenvolvimento, menor taxa de sucesso40–50%
    Euploide (PGT-A)Geneticamente normal, maior previsibilidade de implantação≈ 70%

    Fonte: Gardner & Schoolcraft (2019) · Capalbo et al. (2022)

    3.4 Tempo fértil e desgaste cumulativo

    Cada ciclo de transferência embrionária (TEC) é muito mais do que uma data no calendário. Envolve espera, preparação, investimento e esperança.
    Quando uma transferência falha, não se perde apenas um embrião, perde-se tempo biológico e estabilidade emocional.

    Cada tentativa sem sucesso implica 2 a 3 meses de intervalo, entre a menstruação, nova avaliação e readaptação hormonal.
    Se houver uma gravidez bioquímica ou um aborto precoce, o tempo aumenta: é preciso aguardar a expulsão completa, permitir a recuperação endometrial e preparar novamente o corpo, o que pode demorar até 6 meses até uma nova TEC.

    Este é o lado que os estudos raramente consideram: o tempo fértil não é infinito.
    Mesmo em tratamentos comparticipados pelo Estado, há listas de espera, deslocações, licenças e uma carga emocional enorme.
    No setor privado, soma-se ainda o custo financeiro, que para muitas famílias representa um esforço real.

    As pessoas não são robôs, não vivem ciclos laboratoriais, vivem processos humanos, marcados por ansiedade, incerteza e exaustão.
    Por isso, a decisão entre transferir um ou dois embriões não pode ser apenas estatística.
    Cada falha tem um preço invisível, e muitas vezes o custo mais alto é o tempo que se perde à espera de algo que poderia ter acontecido antes.

    Quando transferir dois embriões faz sentido

    A transferência de dois embriões (DET) não deve ser uma regra, mas em alguns contextos é clinicamente justificada e eticamente equilibrada.
    O objetivo não é “arriscar”, mas aumentar a probabilidade de sucesso quando as condições biológicas são menos favoráveis.

    Faz sentido considerar dois embriões quando:

        • A mulher tem menos de 35 anos, apresenta inflamação pélvica controlada e o útero está equilibrado, mas os embriões não foram biopsados, ou seja, não há certeza genética sobre a euploidia.

        • O casal tem histórico de falhas repetidas ou o tempo fértil está limitado, e cada tentativa perdida representa meses preciosos.

        • A causa da infertilidade (como endometriose, adenomiose ou disfunção imunológica) reduz a taxa de implantação individual por embrião, mesmo com boa morfologia.

        • múltiplos embriões disponíveis e a paciente compreende, aceita e se responsabiliza pelo risco de gravidez gemelar, com acompanhamento médico adequado.

      Nestes casos, o DET não é uma ousadia é uma estratégia racional que considera o contexto clínico, o tempo biológico e o impacto emocional de prolongar o processo indefinidamente.

      5. Quando transferir dois embriões é um erro clínico

      Nem sempre “mais” significa “melhor”. Há situações em que transferir dois embriões aumenta o risco sem trazer qualquer benefício clínico, e pode até comprometer o sucesso global do tratamento.

      5.1 Idade materna avançada

      Com o avanço da idade, o corpo feminino passa por transformações metabólicas e circulatórias que alteram profundamente a capacidade de sustentar uma gravidez múltipla.
      O stress oxidativo aumenta, a elasticidade vascular diminui e há maior vulnerabilidade a hipertensão, diabetes gestacional e parto prematuro.

      Nesses casos, transferir dois embriões não compensa o risco, mesmo que o objetivo seja “aumentar as hipóteses”.
      A realidade é que o organismo, sob maior carga inflamatória e hormonal, pode não estar preparado para o esforço fisiológico de duas placentas, o que acaba por reduzir, e não aumentar, a probabilidade de um desfecho saudável.

      Portanto, transferir dois embriões apenas porque a mulher é mais velha é um erro clínico e fisiológico não uma estratégia inteligente.
      O foco deve estar na qualidade do embrião, na preparação uterina e na estabilidade metabólica, não no número transferido.

      5.2 Embriões de ovócitos doados

      Nos casos de ovodoação, a idade da recetora já não influencia a qualidade embrionária, pois os óvulos provêm de mulheres jovens, geralmente entre os 20 e 30 anos.
      Isso significa que a taxa de euploidia, embriões geneticamente normais é alta, situando-se entre 60% e 70%, e a taxa de implantação por embrião pode atingir 55% a 65%, mesmo em úteros de recetoras acima dos 40 anos.

      Neste contexto, dupla transferência de embriões não aumenta a probabilidade de gravidez apenas o risco de gémeos, com todas as implicações associadas: maior carga cardiovascular, partos prematuros, internamentos prolongados e risco de complicações maternas e neonatais.

      É um erro clínico comum e evitável.
      O raciocínio deve ser o oposto: quanto melhor a qualidade dos embriões, menor a necessidade de transferir dois.
      Em recetoras de ovócitos, a estratégia mais segura e eficaz é a transferência única (SET) que mantém elevadas as hipóteses de sucesso e reduz o risco obstétrico de forma significativa.

      5.3 Embriões euploides (biopsados)

      Quando os embriões são submetidos a PGT-A (biópsia genética pré-implantação) e confirmados como euploides, a probabilidade de gravidez por transferência é muito elevada, rondando os 65% a 70% por embrião.
      Nestes casos, o SET (Single Embryo Transfer) é suficiente, não há ganho estatístico nem clínico em colocar dois embriões ao mesmo tempo.

      Transferir dois embriões euploides aumenta apenas o risco de gestação gemelar, sem melhorar a taxa de nascidos vivos.
      Além disso, coloca o corpo sob um esforço duplicado, duas placentas, maior carga hormonal e maior exigência circulatória, o que pode comprometer o equilíbrio uterino, sobretudo em mulheres com mais de 35 anos ou com histórico de inflamação pélvica.

      Assim, o DET só faz sentido quando os embriões não foram testados geneticamente ou quando há dúvidas sobre a qualidade morfológica, e o objetivo é compensar essa incerteza.
      Em todos os outros cenários, um embrião de boa qualidade é a escolha mais segura e eficaz.

      Estudo sobre a qualidade e a transferência de embriões

      6. O fator tempo e as consequências invisíveis

      Cada transferência embrionária envolve semanas de medicação, monitorização e preparação endometrial. É um processo que exige disciplina, energia e equilíbrio emocional e que raramente é visto pelo que realmente é: um investimento de tempo biológico.

      Quando ocorre uma gravidez bioquímica ou um aborto precoce, o corpo precisa de tempo adicional para limpar o endométrio, estabilizar as hormonas e restaurar o ciclo natural.
      Essa recuperação pode prolongar-se por três a seis meses, antes de ser clinicamente seguro tentar uma nova transferência.

      Se somarmos o tempo de uma TEC, o tempo de uma gravidez curta, o tempo da incerteza até à confirmação, o tempo da expulsão e o tempo de recuperação e nova preparação, um único insucesso pode significar quase um ano fértil perdido.

      Por isso, o protocolo não deve basear-se apenas em estatísticas ou riscos obstétricos teóricos.
      Deve considerar o tempo biológico disponível, o desgaste físico e emocional e o impacto cumulativo das falhas.
      Em fertilidade, o tempo é um recurso tão precioso quanto o embrião e desperdiçá-lo é, muitas vezes, o maior risco de todos.

      7. Ética médica e autonomia reprodutiva na transferência de embriões

      7.1 O que dizem as diretrizes (ASRM, ESHRE, OMS)

      As principais sociedades internacionais de medicina reprodutiva ASRM (American Society for Reproductive Medicine), ESHRE (European Society of Human Reproduction and Embryology) e OMS (Organização Mundial da Saúde) são unânimes num ponto essencial:
      O número de embriões transferidos não deve ser decidido unilateralmente pela equipa médica.

      A transferência de embriões deve resultar de uma decisão partilhada entre médico e paciente, sustentada por evidência científica e por consentimento informado, onde o casal compreende claramente os riscos e benefícios de cada opção.

      O papel do médico é informar, contextualizar e proteger a segurança obstétrica, mas respeitar a autonomia reprodutiva é igualmente um dever ético.
      Impor um protocolo rígido, sem atender à idade, à causa da infertilidade ou ao número de embriões disponíveis, transforma um ato médico individualizado num procedimento padronizado e isso contraria a essência da medicina reprodutiva moderna.

      7.2 O que diz a lei em Portugal

      Em Portugal, a Lei da Procriação Medicamente Assistida (Decreto-Lei n.º 32/2006, com as alterações em vigor) não impõe um número máximo de embriões a transferir.
      A legislação determina apenas que o médico deve “ponderar caso a caso, tendo em conta a idade da mulher, o seu estado de saúde e o número de embriões disponíveis.”

      Isto significa que a decisão final não é legalmente limitada, mas clínica e contextual.
      O casal tem, portanto, o direito de apresentar um pedido fundamentado, apoiado em argumentos objetivos como a idade, o histórico de tentativas, o tipo de embriões e a causa da infertilidade.

      Em termos práticos, a lei protege a autonomia reprodutiva e a liberdade de decisão informada, desde que exista diálogo, documentação e compreensão dos riscos envolvidos.
      Assim, a transferência de dois embriões pode ser eticamente e juridicamente defensável, quando clinicamente justificada e devidamente consentida.

      7.3 Ética do excesso e da omissão

      A ética médica não se mede apenas pelo que se faz a mais mede-se também pelo que se deixa de fazer.
      Transferir dois embriões em recetoras de ovócitos ou em mulheres com risco obstétrico elevado é, de facto, um excesso clínico: aumenta a probabilidade de complicações sem qualquer ganho real.

      Mas o oposto também é verdade.
      Impor a transferência de um único embrião a mulheres jovens, com endometriose, adenomiose ou inflamação uterina, que têm menor taxa de implantação por embrião, é uma omissão terapêutica, um erro ético travestido de prudência.

      A verdadeira ética clínica não está no número de embriões, mas na capacidade de personalizar a decisão.
      Cada caso deve ser avaliado com base na biologia, na história e no tempo fértil da paciente, não em protocolos uniformes.
      A medicina reprodutiva é, por definição, uma medicina de contexto; e negar individualização é negar humanidade ao processo.

      8. Biologia, escolha e estratégia familiar

      A fertilidade não é apenas uma questão de engravidar é uma decisão biológica, emocional e estratégica.
      Para alguns casais, o objetivo é ter um único filho com segurança e acompanhamento próximo.
      Para outros, é otimizar o tempo fértil e tentar garantir uma família completa sem prolongar anos de tratamentos.

      Em casais jovens, com embriões de boa qualidade e reserva embrionária abundante, transferir dois embriões pode reduzir o número total de transferências necessárias e, consequentemente, o custo cumulativo financeiro, físico e emocional.
      Cada TEC representa semanas de hormonas, ansiedade e espera. Multiplicar esse processo apenas por protocolo pode não ser racional nem humano.

      Quando se dispõe de vários embriões e existe o desejo legítimo de ter mais do que um filho, a estratégia pode ser planeada a longo prazo, um ou dois embriões agora, e outros preservados para o futuro.
      Mas quando o tempo é limitado, e o quadro clínico inclui fatores inflamatórios ou endometriais, a decisão de colocar dois embriões pode ser a única forma de equilibrar o risco biológico e o tempo de vida fértil real.

      A biologia não obedece a estatísticas populacionais.
      Obedece à singularidade de cada corpo, de cada útero e de cada história reprodutiva.
      E é isso que deve orientar a decisão sempre com consciência, mas também com coragem.

      9. Conclusão — A transferência de embriões como decisão consciente

      A transferência embrionária é o ponto onde a ciência e o desejo humano se encontram e onde a técnica precisa de sensibilidade.
      Nem sempre “menos é mais”: às vezes, um protocolo rígido custa meses de vida fértil, tempo emocional e oportunidades que não voltam.

      A melhor decisão não é a que segue o protocolo, mas a que resulta de uma análise informada, contextual e consciente construída com dados, experiência clínica e respeito pela história de cada mulher.
      A medicina deve guiar, não decidir sozinha.

      Não sou médica, mas sou profissional de saúde com cédula registada na ACSS, e passo os meus dias a ler estudos, analisar evidência e, acima de tudo, ouvir mulheres reais.
      Mais do que interpretar exames, procuro interpretar contextos.
      Empodero as minhas pacientes para que saibam decidir com clareza, não por impulso mas com consciência plena do que estão a escolher.

      Aconselho, explico e traduzo a ciência em linguagem humana, mas respeito sempre a decisão final de cada mulher.
      O meu papel é garantir que essa decisão é tomada com informação a 360 graus, com lucidez, confiança e autonomia.
      E há um princípio que nunca abdico: o interesse e a segurança da paciente estão sempre em primeiro lugar. Isso, para mim, é sagrado.

      Depois de ler tudo isto, talvez sinta que ainda faltava algo: ver o seu caso de forma prática. Desenhei uma balança para a ajudar a colocar os fatores em perspetiva: os que favorecem um embrião, e os que tornam razoável transferir dois.

      O objetivo não é decidir por si, mas dar-lhe clareza antes da próxima conversa com a sua equipa médica.

      📚 Fontes e Referências

      1. Revisões sistemáticas e meta-análises sobre SET vs DET

          • Pandian Z, Marjoribanks J, Ozturk O, Serour G, Bhattacharya S. Number of embryos for transfer following in vitro fertilisation or intra-cytoplasmic sperm injection. Cochrane Database Syst Rev. 2020; Issue 9.

          • McLernon DJ et al. Clinical effectiveness of elective single versus double embryo transfer: cumulative live birth data from randomised trials. BMJ. 2021;372:n284.

          • Human Fertilisation and Embryology Authority (HFEA). Multiple births after IVF: success rates and safety. HFEA Report, 2022.


        2. Diretrizes clínicas e éticas

            • ESHRE (European Society of Human Reproduction and Embryology). Good practice recommendations for add-on treatments in ART. ESHRE Guideline, 2023.

            • ASRM (American Society for Reproductive Medicine). Guidance on number of embryos to transfer: a committee opinion. Fertility and Sterility. 2021;116(3):651–654.

            • OMS (Organização Mundial da Saúde). Global guidance on assisted reproductive technology. WHO Reproductive Health Library, 2022.

            • Decreto-Lei n.º 32/2006 (Portugal). Lei da Procriação Medicamente Assistida, com alterações em vigor.


          3. Fatores clínicos e idade materna

              • Pinborg A et al. Maternal age and twin pregnancy outcomes after assisted reproduction: a Danish national cohort. Human Reproduction. 2020;35(10):2296–2306.

              • Ishihara O et al. Maternal age and perinatal outcomes of twin pregnancies following assisted reproductive technology: a multicenter study. Reproductive Medicine and Biology. 2021;20(1):52–59.

              • ESHRE Annual Meeting Abstracts, 2023. Maternal age as a predictor of preeclampsia and preterm birth in twin pregnancies following ART.


            4. Embriologia e qualidade embrionária

                • Gardner DK, Schoolcraft WB. Culture and transfer of human blastocysts. Curr Opin Obstet Gynecol. 2019;31(3):169–176.

                • Capalbo A et al. PGT-A and the clinical impact of euploid embryo selection. Fertility and Sterility. 2022;118(2):233–245.

                • Franasiak JM, Scott RT Jr. Morphologic and genetic determinants of embryo competence. Fertility and Sterility. 2020;114(5):964–971.


              5. Fatores inflamatórios e endometriose

                  • Younis JS et al. Adenomyosis and IVF: a systematic review and meta-analysis of reproductive outcomes. Reproductive BioMedicine Online. 2022;44(2):239–251.

                  • Benaglia L et al. Endometriosis and assisted reproductive technologies: current findings and future directions. Fertility and Sterility. 2021;116(6):1556–1568.


                6. Tempo, desgaste e impacto emocional

                    • Gameiro S, Boivin J, Domar A. Psychological and biological aspects of fertility treatment delay and failure. Human Reproduction Update. 2020;26(4):543–557.

                    • Verhaak CM et al. Emotional impact and time to next treatment following failed IVF cycles. Human Reproduction. 2019;34(10):1902–1910.


                  7. Ética, autonomia e personalização da decisão

                      • Dondorp W, de Wert G. Ethical guidance on ART: balancing autonomy, safety and justice. Reproductive BioMedicine & Society Online. 2021;12:45–52.

                      • ASRM Ethics Committee. Patient autonomy and informed consent in assisted reproduction. Fertility and Sterility. 2022;118(4):698–703.

                      • ESHRE Task Force on Ethics and Law. Ethical considerations in the number of embryos transferred. Human Reproduction. 2020;35(7):1489–1495.


                    8. Dados nacionais e contextuais (Portugal)

                        • Conselho Nacional de Procriação Medicamente Assistida (CNPMA). Relatório Anual de Atividade – Técnicas de PMA em Portugal. Lisboa: Ministério da Saúde, 2023.

                        • Infarmed / ACSS. Relatório Técnico sobre Centros de Reprodução Assistida em Portugal. 2023.

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