Em cada 100 gravidezes, estima-se que 2 a 5 sejam gravidez ectópica. A gravidez ectópica é uma gravidez em que o embrião não chega ao endométrio, o lugar correto para implantar, mas implanta à mesma. Cerca de 90% das gravidezes ectópicas acontecem nas Trompas de Falópio. Nos restantes casos de gravidez ectópica o embrião implanta-se no ovário, no colo do útero, no abdómen ou ainda em cicatrizes de cesarianas anteriores ou outras cirurgias.
Vestígios de Dietilstilbestrol (DES), um estrogénio não esteroide muito usado antes de 1971 com o intuito de prevenir complicações na gravidez.
Eram prescrito DES para mulheres com historial de abortos espontâneos recorrentes durante a gravidez, e veio a perceber-se mais tarde que os seus fetos femininos expostos a este medicamente in utero desenvolveram vários riscos relacionados a sua fertilidade e reprodução, entre eles risco de gravidez ectópica aumentado em 14,9%. Foi detetado nas filhas das mulheres medicadas com DES durante a gravidez , malformações e obstruções nas trompas e ainda se desconhecem as consequências para as netas, a geração seguinte,
Inflamações Pélvicas ou Doenças Sexualmente Transmissíveis: estados inflamatórios, DST, candidíases graves e frequentes podem gerar edemas e mucos nas trompas e obstruí-las. O que são estes edemas e mucos?
Quando existem microrganismos presentes, corpo aciona a resposta de defesa e envia mais sangue com os soldados (prostaglandinas e histaminas). Então dá-se uma batalha onde o plasma dos vasos acompanhado de proteínas e toda a área fica congestionada.
Hormonas sintéticas: usadas especialmente em Reprodução Assistida afetam a contração natural das trompas e do endométrio, podendo dificultar a descida do embrião (no caso de coito programado ou Inseminação Intra Uterina) e movimentar o embrião transferido no caso de FIV/ICSI.
Deficiência de progesterona: a progesterona é a hormona que ajuda as vilosidades das trompas de Falópio a “conduzir” o embrião até ao istmo, uma espécie de portão de entrada entre útero e trompas. Na falta dela, este movimento pode ser insuficiente e o embrião implantar nas trompas antes de chegar ao endométrio.
Cicatrizes de antigas cirurgias ou até cesarianas podem formar queloides e aderências onde o embrião fica “preso” e implantar ali. São dos casos mais perigosos devido à dificuldade de diagnóstico e risco de hemorragia.
Fumar e consumir álcool regularmente: hoje sabemos que a nicotina e o álcool aumenta as contrações das trompas de Falópio e o seu estreitamento, diminuem as vilosidades das trompas que irão conduzir o embrião, assim como diminuem a movimentação das vilosidades restantes. O risco de gravidez ectópica nestes casos é 4 vezes maior e aumenta mais ainda consoante o consumo.
Endometriose: tecido do endométrio que sobe e viaja para fora do endométrio. Pode ir por exemplo para os ovários, as trompas e mesmo abdómem. Cresce tecido onde não seria normal e dessa forma existir o risco de obstrução parcial das trompas. Os espermatozoides ainda conseguem subir, fecundam com o ovócito e dá-se a multiplicação celular do óvulo fecundado. Com este um aumento de tamanho e a obstrução parcial, fica impossível implantar o embrião e ele acaba por fazer a nidação nas trompas de Falópio.
Historial de gravidez ectópica: mulheres que já tiveram anteriormente gravidez ectópica, têm entre 10 a 25% mais risco de virem a ter nova ocorrência.
O uso prolongado de DIU: Parece que o uso prolongado do DIU pode causar uma inflamação nas trompas e como consequência alterar a sua função sejas das vilosidades, seja da contração das trompas e por isso aumentar o risco de gravidez ectópica, devido ao atraso que causa no
transporte do óvulo ao longo das trompas. Um estudo de 2021 acrescenta ainda que o DIU de
cobre pode desequilibrar a libertação de progesterona, hormona que por si só também altera a função tubária.
Idade – Não se sabe ao certo porque, mas a idade da mulher é um dos fatores de risco. Especula-se que o envelhecimento leve a alterações nas trompas, o que pode dificultar a chegada do óvulo ao útero.
Estas são as principais causas da gravidez ectópica. Percebendo o porquê, vamos aprender a distinguir uma gravidez ectópica duma gravidez normal
A gravidez ectópica é perigosa. O embrião implantado continua crescendo na estreita tuba uterina. Por volta da terceira semana após a implantação, é grande o suficiente para pressionar a tuba por dentro.
À medida que a pressão aumenta, a paciente costuma apresentar sintomas como dor abdominal unilateral que aumenta progressivamente, inchaço abdominal, hemorragias, e desmaios.
Quando a trompa se rompe devido à pressão do embrião em crescimento, a mulher sente uma dor aguda ou dilacerante num lado do abdómen, perto da virilha, e a tensão arterial baixa abruptamente assim como surgem outros sintomas de choque.
A rutura da trompas causa uma hemorragia que pode ser fatal se não for tratada com cirurgia. A gravidez ectópica é a principal causa de mortalidade materna no primeiro trimestre de gestação.
Estes cenários de risco são evitados quando a monitorização precoce da gravidez é respeitada. Com o atraso da menstruação, a mulher fará teste de gravidez. Eu aconselho que faça análise sanguinea para termos acesso à dosagem de beta-hCG. Assim que atinge o valor 2000 mUI/ml é possível visualizar o saco gestacional através de ecografia com sonda vaginal. Se a mulher apresentar estes níveis e não for encontrado saco no endométrio, tem de ser procurado fora do útero.
Tenha em conta que nos primeiros 41 dias de gravidez os valores do beta-hCG duplicam a cada 48horas. Assim será mais fácil calcular quando o saco gestacional poderá ser observado.
Níveis baixos ou lentamente crescentes de beta-hCG no sangue sugerem uma gravidez anormal, como ectópica ou aborto espontâneo. Caso os níveis de beta-hCG sejam anormalmente baixos, mais testes terão de ser realizados para descobrir a causa.
Todas as gravidezes ectópicas são inviáveis e além disso representam risco de vida para a mulher. Quanto mais cedo for detetada, menor é o risco para a saúde da grávida.
É impossível “salvar” uma gravidez ectópica transferindo o embrião para o útero. Outras estruturas do corpo simplesmente não são capazes de proteger ou nutrir um embrião e a remoção do embrião do local onde está implantado causa danos irreparáveis nele.
Esta é a principal razão por que peço às minhas grávidas para fazerem controlo ecográfico após o teste positivo. Cerca de 80% das minhas pacientes estão em reprodução assistida e desconhecem que a gravidez ectópica pode acontecer como consequência dos tratamentos de fertilidade.
Por norma, a equipa médica de PMA após o positivo marca a 1.ª ecografia entre as 6 e 7 semanas. Altura em que se ocorrer uma gravidez ectópica e não for detetada arriscamos consequências muito sérias. Nestes anos em que acompanho casais, apenas registei 3 casos de gravidez ectópica, sendo 2 deles resultado de FIV e apesar dos sintomas serem bastante indicativos não foi na 1.ª visita às urgências que conseguiram o apoio que necessitavam.
Veja mais sobre este tema no meu Podcast Amor Perfeito, neste episódio. Para ter o meu acompanhamento na sua gravidez, clique aqui