Os exames estão normais. Então porque é que não engravido?
“O médico disse que está tudo bem.” É uma das frases que oiço com mais frequência. Os exames voltaram dentro do intervalo, não há nada assinalado como errado, e ainda assim a gravidez não acontece. Mês após mês.
O problema, na maioria destes casos, não é que os exames mentem. Na verdade, os exames respondem apenas ao que lhes foi perguntado.
Os intervalos de referência não foram feitos para quem quer engravidar
Os valores laboratoriais têm um mínimo e um máximo. Quem define esse intervalo é a medicina para a população em geral, não para uma mulher que está a tentar engravidar. Por isso, é perfeitamente possível estar dentro do intervalo e, mesmo assim, não ter os níveis optimizados para a gravidez acontecer e se manter.
Dois exemplos concretos:
TSH e a tiróide. O valor de referência pode ir até quatro. Para a população geral, isso é aceitável. Para uma mulher que quer engravidar, porém, não chega. No início da gravidez, a tiróide sofre uma oscilação, primeiro desce e depois sobe. Se o TSH já estiver acima de 2,5 antes de engravidar, essa subida pode ser excessiva e aumentar o risco de perda precoce. O exame não sinaliza nada. O risco existe na mesma.
Ferritina. Um valor normal de ferritina é insuficiente para a fertilidade. Durante a gravidez, o bebé precisa de ferro para construir a sua estrutura e, além disso, a mulher aumenta o volume de sangue em circulação. Uma ferritina “dentro do intervalo” pode não ter reserva suficiente para sustentar esse processo. Mais uma vez, o exame não marca nada a vermelho. O problema está lá na mesma.
Da mesma forma, o mesmo raciocínio vale para a progesterona. Um valor dito normal pode não ser suficiente para sustentar o que a gravidez exige nas primeiras semanas, quando o corpo lúteo tem de responder a uma exigência extra.
“Está tudo normal”, mas o que foi avaliado?
Há uma diferença entre não encontrar nada errado e ter investigado o suficiente.
Se alguém me perguntar o meu nome e eu responder “Paula”, estou a responder à pergunta, mas não estou a dizer o nome completo. Os exames funcionam da mesma forma, respondem exactamente ao que foi pedido. Portanto, se a pergunta foi incompleta, a resposta também vai ser incompleta.
Por isso, quando uma mulher diz que os exames estão todos normais, a primeira coisa que faço é perceber quais foram esses exames. Muitas vezes, ao investigar com mais profundidade, percebe-se que não estava nada normal. E que, entretanto, passou tempo. Tempo que essa mulher passou a pensar que não havia problema, quando havia.
Normal não é o mesmo que funcional para a gravidez
Há outro ponto que raramente se discute nas consultas convencionais. A gravidez não é um estado normal. É um estado de exigência máxima do organismo.
Por isso, regular-se por parâmetros de “normal” quando se quer engravidar é insuficiente à partida. O que importa avaliar é se o corpo está funcional para a gravidez. São dois critérios completamente diferentes.
Mulheres que chegam exaustas, com stress crónico e com os recursos físicos no limite, podem ter exames dentro do intervalo e, mesmo assim, o corpo sinaliza que não tem condições para suportar uma gravidez. O cortisol, a adrenalina e a noradrenalina são hormonas de resposta ao stress e actuam em oposição directa às hormonas sexuais. Quando umas sobem, as outras descem. Não é uma questão de vontade. É fisiologia.
Além disso, a espécie humana reproduz-se melhor em condições de segurança e recursos. Quando o corpo sente stress crónico, a reprodução deixa de ser prioridade.
O ângulo morto da fertilidade
Nas aulas de condução, os instrutores ensinam sempre a ter cuidado com o ângulo morto. Pelo espelho retrovisor consegue-se ver grande parte do que está atrás, mas não tudo. Há sempre um ponto que escapa à visão directa.
Na fertilidade acontece exactamente o mesmo. Muitas mulheres chegam com toda a logística aparentemente controlada. Fizeram os exames, seguiram as indicações, estão dentro dos intervalos. No entanto, não olharam para o ângulo morto. Não avaliaram o que não foi pedido. Não cruzaram os dados com a realidade clínica de quem quer engravidar, e não apenas de quem quer estar saudável em geral.
O que parte o coração é quando chegam mulheres que perderam esse tempo. Os sinais estavam lá, as pontas soltas eram visíveis, mas como os exames básicos estavam normais, ninguém avançou na investigação. E depois ouvem dizer que a idade já é um factor. Preocuparam-se cedo, mas não obtiveram as respostas de que precisavam.
O que fazer quando os exames estão normais e a gravidez não acontece
O passo seguinte não é desistir nem resignar. É mudar a pergunta.
Em vez de “porque é que não engravido se está tudo normal?”, a pergunta passa a ser outra. O que é que ainda não foi avaliado no meu caso? Onde está o meu ângulo morto?
É aqui que a abordagem integrativa entra. Não para substituir a medicina convencional, mas para cruzar o que os exames mostram com o que o corpo expressa clinicamente, hormona a hormona, sistema a sistema, com os parâmetros certos para fertilidade e não para a população geral.
Portanto, se se revê nesta situação, o primeiro passo é perceber onde pode estar o bloqueio no seu caso específico.
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Este artigo é baseado na live “Os exames estão normais. Então porque é que não engravido?” — pode ver a sessão completa aqui.
Paula Castro é especialista em Fertilidade Integrativa. Une a leitura clínica da Medicina Chinesa com o conhecimento da medicina ocidental para acompanhar mulheres com historial de exames normais sem resultado, endometriose, adenomiose e preparação para PMA. Atendimento exclusivamente online. Siga no Instagram: @paulacastrofertilidade