Tudo o que precisa saber sobre ovodoação

A ovodoação é um procedimento de reprodução assistida em que óvulos saudáveis de uma doadora são fertilizados em laboratório. Esses embriões resultantes são então transferidos para a beneficiária que deseja engravidar, mas que não possui óvulos próprios viáveis.

Taxas de sucesso na ovodoação

As taxas de sucesso da gravidez por doação de óvulos estão entre 55% a 65%. Após o terceiro ciclo de doação, esse índice supera os 80%. Já a taxa de aborto, que gira em torno de 50% para mulheres que engravidam dos próprios óvulos a partir dos 42 anos, cai para 15% com a ovodação.

É válido lembrar que o processo de doação de óvulos pode exigir múltiplas tentativas antes de alcançar uma gravidez bem-sucedida, e o acompanhamento adequado durante todo o processo é essencial para maximizar as hipóteses de sucesso.

A importância da qualidade dos gametas masculinos

Para garantir um processo bem-sucedido, vale a pena apostar na melhoria da qualidade dos gametas masculinos (espermatozoides), pelo menos 3 meses antes da colheita de sêmen. E caso o homem tenha mais de 40 anos, excesso de peso, fume, beba álcool ou café, tenha fontes de contaminação ambiental perto de si, tenha doenças autoimunes ou tenha passado por tratamentos oncológicos, vale a pena fazer um teste de fragmentação de ADN espermático para acautelar dificuldades que possam surgir dali.

 

Quem pode receber óvulos?

Em Portugal, a pessoa que deve receber os óvulos doados é chamada de beneficiária. A Lei de Procriação Medicamente Assistida (Lei nº 32/2006) estabelece os critérios para a elegibilidade das beneficiárias de óvulos doados.

De acordo com a legislação portuguesa, as beneficiárias de óvulos doados podem ser mulheres que tenham uma indicação médica para recorrer à doação de óvulos, como aquelas que têm problemas de fertilidade ou que não possuem óvulos viáveis. Além disso, a lei também estabelece algumas restrições e requisitos, como a idade máxima da beneficiária, que geralmente é de 50 anos.

 

Quantos embriões transferir?

O número de embriões a serem transferidos durante um tratamento de doação de óvulos pode variar de acordo com vários fatores, incluindo a idade da beneficiária, a qualidade dos embriões disponíveis e as diretrizes clínicas específicas. Sabemos que a gravidez por FIV representa um risco, e o fator idade acrescenta risco; gravidezes múltiplas aumentam esses riscos. No entanto, sabemos também que a probabilidade da implantação dos embriões por ovodoação é substancialmente maior, sendo assim, lanço a questão: vale a pena correr ainda mais riscos?

 

“Não possui a mesma genética que eu, não vai ter semelhanças físicas nem psicológicas”

Sabia que eu e você somos 99,9% geneticamente iguais? Isto significa que as diferenças que percebemos ao nascimento entre uma criança e outra não dependem apenas de ela ter genes específicos herdados da mãe ou do pai, mas também da influência do ambiente que determina como o código genético será expresso.

De acordo com as pesquisas sobre ovodoação e epigenética, a pessoa que nasce do útero da receptora será totalmente diferente daquela que seria gerada na barriga da doadora. Estudos no campo da epigenética têm mostrado a influência da convivência na modulação dos genes que determinam a forma de olhar e o gestual.

 

Como isso é possível?

Através da epigenética (epi – por cima + genética = além da genética), que é uma camada adicional de complexidade biológica que influencia nosso ADN. O mesmo DNA é usado para dar origem a células completamente diferentes, como músculos, cabelos ou neurónios. São pedaços de DNA que não contêm receita para a produção de nada, mas estão à espera de receber comandos para ativação ou desligamento de genes. A epigenética funciona como um interruptor que liga e desliga esses genes.

Esse processo é influenciado por moléculas como metila (CH3), que funcionam como “etiquetas” no DNA, impedindo a ativação de certos genes. Quando essas etiquetas são removidas, o gene é ativado, gerando proteínas e acionando determinadas funções ou alterações.

 

A influência da mãe receptora na genética do bebé

No contexto da ovodoação, a mãe receptora desempenha um papel fundamental. Ela não é apenas a “incubadora” do bebé, mas um agente ativo na formação do bebé, influenciando a sua saúde futura. O ambiente do útero da mãe receptora contribui não só para o desenvolvimento físico, mas também para o desenvolvimento emocional e até o comportamento do bebé, através da epigenética.

  • Exemplo: Mesmo que o bebé tenha recebido um óvulo de uma doadora, os cuidados da mãe receptora, a forma como ela interage com o bebé, a sua alimentação, o seu estilo de vida e as suas emoções vão influenciar o desenvolvimento do bebé e, consequentemente, a sua saúde a longo prazo

 

Preocupações sobre a genética da doadora

É natural que as mulheres se preocupem com as semelhanças físicas e psicológicas entre a criança e a mãe receptora, mas a epigenética ajuda a entender que a genética não é tudo. A mãe que gesta, ou seja, a receptora, desempenha um papel fundamental no desenvolvimento do bebé, influenciando as suas características através do ambiente do útero.

Além disso, as clínicas de fertilidade realizam uma rigorosa seleção genética para garantir que os óvulos doados sejam de pessoas saudáveis e sem histórico de doenças genéticas graves. Algumas clínicas oferecem matching genético, que pode ajudar a avaliar a presença de doenças recessivas.

A importância da saúde da mãe receptora

A mãe receptora desempenha um papel fundamental na saúde do bebé. A qualidade do ambiente uterino, incluindo a alimentação, os cuidados com a saúde, a exposição a substâncias e o estilo de vida da mãe, tem um impacto direto no desenvolvimento do bebé. Mesmo que a criança não seja biologicamente filha da mãe, ela será, sim, geneticamente influenciada pela mãe receptora, tanto emocional quanto fisicamente.

A saúde e o estilo de vida da mãe, como a alimentação, o controle do estresse e a prática de atividade física, contribuem para o desenvolvimento adequado do bebé e para a programação epigenética que ocorre no útero.

 

Quando o marido não aceita a ovodoação

A decisão de recorrer à ovodoação pode ser especialmente difícil para alguns homens, que podem sentir uma resistência emocional ao saber que a criança não terá uma ligação genética direta com um deles. Aqui estão algumas razões pelas quais isso acontece e como podemos abordá-las com empatia:

A decisão de recorrer à ovodoação pode ser especialmente difícil para alguns homens, que podem sentir uma resistência emocional ao saber que o óvulo não é da esposa, embora a contribuição genética do homem seja preservada, pois ele é responsável pela fertilização do óvulo com o seu esperma. Aqui estão algumas razões pelas quais isso acontece e como podemos abordá-las com empatia:

1. Medo de perder a “conexão biológica”

Muitos homens podem sentir que, ao optar pela ovodoação, a criança não será “geneticamente” sua, uma vez que o óvulo é de uma doadora. Embora o homem não perca a sua contribuição genética, ele pode ter a sensação de que o vínculo biológico é comprometido, o que pode gerar sentimentos de perda ou distanciamento emocional.

Como lidar com isso:

  • Focar na paternidade emocional: A paternidade vai muito além da genética. O pai desempenha um papel ativo na criação, educação e amor pela criança, e é esse vínculo que define a relação pai-filho. A ligação emocional é tão importante quanto, ou até mais importante, que a conexão genética.

  • Educação sobre epigenética: A mãe receptora exerce uma grande influência sobre o desenvolvimento do bebé, especialmente através da epigenética, que é a forma como o ambiente uterino pode afetar a expressão genética da criança. Isso pode ajudar a fortalecer o papel do pai na formação da identidade do filho.

2. Preocupação com a identidade do filho

Alguns homens podem se preocupar com a identidade do filho, temendo que a criança não se sinta parte da família. Eles podem questionar se o bebé será aceito pela família e amigos, ou até mesmo se irá crescer sem uma sensação de pertencimento, uma vez que o óvulo não é da mãe.

Como lidar com isso:

  • Falar sobre o vínculo familiar: A identidade de uma criança é formada muito mais pela convivência e pelos cuidados diários do que pelos genes. O amor, os valores familiares e a convivência são os principais fatores que constroem a identidade da criança.

  • Envolver-se no processo: Muitos casais que passam por esse processo relatam que, ao se envolverem nas etapas do tratamento, desde a escolha da doadora até a transferência dos embriões, o vínculo com o bebé é fortalecido. É importante que o marido perceba que ele será, de fato, o pai da criança, independentemente da doação dos óvulos.

3. A resistência à ideia de “perder o controle”

Em alguns casos, o marido pode sentir que, ao recorrer à ovodoação, está perdendo o controle sobre a decisão de ter um filho, especialmente em relação à escolha da doadora e o processo em si.

Como lidar com isso:

  • Educar sobre o processo: Explicar detalhadamente o processo de doação de óvulos e a seleção rigorosa das doadoras pode ajudar a reduzir a sensação de perda de controle. Muitas clínicas oferecem opções para que o casal possa escolher a doadora com base em características físicas, educacionais e até psicológicas.

  • Focar no papel ativo do casal: Embora a doação de óvulos envolva uma doadora, o casal ainda tem total controle sobre o processo, participando da seleção e acompanhamento dos embriões.

4. Dúvidas religiosas ou culturais

Alguns homens podem ter dificuldades em aceitar a ovodoação devido a crenças religiosas ou culturais, que podem considerar esse processo como algo que desafia valores tradicionais sobre a concepção e a paternidade.

Como lidar com isso:

  • Discussão aberta e respeito mútuo: É importante que o casal discuta suas crenças de maneira aberta e sem pressões, respeitando as opiniões e sentimentos de ambos. Consultar um conselheiro espiritual ou líder religioso pode ajudar a esclarecer dúvidas sobre a moralidade ou aceitabilidade do processo dentro de suas crenças.

5. Apoio psicológico e emocional

O processo de ovodoação pode gerar inseguranças e dúvidas que, se não forem tratadas, podem afetar negativamente a relação. O apoio psicológico pode ser essencial para ajudar o casal a lidar com as emoções envolvidas.

Como lidar com isso:

  • Buscar apoio psicológico: Terapia de casal ou aconselhamento especializado em fertilidade pode ajudar o marido a processar suas emoções e preocupações. Ter um espaço seguro para falar sobre suas inseguranças pode aliviar a resistência e fortalecer a parceria durante o processo.

 

A transformação pela prolactina: o amor incondicional

Uma das hormonas produzidas pela placenta, a prolactina, está diretamente associada à criação do vínculo emocional entre a mãe e o filho. Ela é responsável por provocar a transformação do cérebro da mãe, tornando-a capaz de desenvolver um amor incondicional pelo bebé. A prolactina é fundamental para que a mãe esteja pronta para lidar com as exigências físicas e emocionais da maternidade, como a privação de sono e o cansaço.

 

Epigenética: O Impacto no Desenvolvimento do Bebé

Epigenética é o estudo de mudanças hereditárias na expressão dos genes que não envolvem alterações na sequência do DNA. Ou seja, o código genético em si não é alterado, mas a maneira como ele se expressa pode ser modificada. Isso ocorre através de uma camada adicional de regulação sobre o DNA, que controla quais genes são ativados ou desativados.

Exemplo de epigenética: Imagine que o DNA é um manual de instruções para construir um corpo. A epigenética funciona como o “índice” desse manual, ajudando a decidir qual capítulo será lido e em que ordem, dependendo de fatores como ambiente, dieta, estilo de vida e até emoções da mãe.

Como a Epigenética Influencia o Bebé no Útero?

Durante a gravidez, o ambiente uterino desempenha um papel crucial no desenvolvimento do feto, influenciando diretamente a expressão genética do bebé. A alimentação da mãe, seus hábitos de vida, níveis de estresse, exposição a toxinas ou até mesmo seu estado emocional podem desencadear alterações epigenéticas que influenciam a saúde e o comportamento do bebé.

Alimentação e Epigenética:

A dieta materna tem um impacto significativo na expressão dos genes do bebé. Por exemplo, nutrientes essenciais como ácido fólico, vitaminas e minerais influenciam a metilação do DNA, um dos principais processos epigenéticos. A metilação é como uma “etiqueta” no DNA que pode ativar ou desativar genes específicos.

  • Exemplo: Estudos mostram que dietas ricas em folato podem ajudar a regular genes que afetam o desenvolvimento do cérebro, potencialmente reduzindo o risco de deficiências cognitivas ou problemas neurológicos no bebé.

  • Dieta balanceada: A falta de nutrientes essenciais pode levar a uma “leitura” inadequada dos genes, o que pode afetar negativamente o desenvolvimento fetal.

Estilo de Vida e Epigenética:

Os hábitos de vida da mãe, como atividade física, exposição a substâncias (álcool, tabaco, produtos químicos) e até o nível de qualidade do sono, também afetam diretamente a programação epigenética do bebé.

  • Exemplo: Mulheres que praticam exercícios físicos moderados durante a gravidez têm maior probabilidade de favorecer um ambiente uterino saudável, promovendo uma melhor programação epigenética no bebé.

  • Exposição ao estresse: O estresse crônico durante a gestação pode ativar certos genes relacionados ao desenvolvimento emocional, afetando o comportamento do bebé, com consequências a longo prazo.

 

Epigenética: Impactos Além do Nascimento

As alterações epigenéticas que ocorrem durante a gravidez podem ter efeitos duradouros na saúde do bebé, não apenas no momento do nascimento, mas ao longo de toda a sua vida. De fato, algumas dessas mudanças podem ser transmitidas para as gerações futuras, impactando netos e bisnetos.

  • Exemplo: Estudos com animais mostraram que se uma mãe for exposta a um ambiente pobre em nutrientes, isso pode afetar a saúde do feto e até mesmo ser transmitido para as gerações seguintes, resultando em maior suscetibilidade a doenças como diabetes ou doenças cardiovasculares.

  • Efeitos na saúde a longo prazo: As alterações epigenéticas influenciam a metabolização de alimentos, a resposta ao estresse, a disposição genética para doenças e outros fatores de saúde. Portanto, o ambiente do útero não só define o bebé, mas pode influenciar a saúde das próximas gerações.

 

O Papel da Epigenética na Receptora de Óvulos

No contexto da ovodoação, a mãe receptora desempenha um papel fundamental. Ela não é apenas a “incubadora” do bebé, mas um agente ativo na formação do bebé, influenciando a sua saúde futura. O ambiente do útero da mãe receptora contribui não só para o desenvolvimento físico, mas também para o desenvolvimento emocional e até o comportamento do bebé, através da epigenética.

  • Exemplo: Mesmo que o bebé tenha recebido um óvulo de uma doadora, os cuidados da mãe receptora, a forma como ela interage com o bebé, a sua alimentação, o seu estilo de vida e as suas emoções vão influenciar o desenvolvimento do bebé e, consequentemente, a sua saúde a longo prazo.

 

Impacto das Alterações Epigenéticas nas Gerações Futuras

A epigenética também pode ser responsável por alterações na hereditariedade que não estão relacionadas diretamente ao código genético. Ou seja, o que a mãe vivencia pode ter implicações para a saúde e a qualidade de vida dos seus filhos e netos.

  • Exemplo: Se a mãe receptora viver em um ambiente mais saudável durante a gravidez, a saúde do bebé será beneficiada, e essa programação saudável pode, em alguns casos, ser transmitida para as gerações seguintes. Da mesma forma, uma gravidez em que a mãe esteja exposta ao estresse ou à má alimentação pode afetar as futuras gerações.

Espero que este artigo tenha desmistificado a ovodoação e ajude a tomar uma escolha mais consciente. Lembre-se que, mesmo com grandes hipóteses de sucesso para a transferência de embriões, o corpo ainda precisa de cuidados e preparação adequados para garantir não só o positivo, mas também a saúde e o bem-estar do bebé.

Estou disponível para apoiá-la neste processo. Veja como funciona o agendamento de consultas aqui.